Entrelinhas #21 - A Odisseia, o épico da humanidade

CADERNO DE IDEIAS

George Lucas Casagrande

9/4/20261 min read

Um trecho de História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, nos dá a dimensão da importância de Homero para os gregos:

“Para os antigos, Homero não era uma obra literária, leitura obrigatória dos estudantes e objeto de discussão crítica entre os homens de letras. Na Antiguidade também, assim como nos tempos modernos, Homero era indiscutido: mas não como epopeia, e sim como Bíblia. Era um Código. Versos de Homero serviam para apoiar opiniões literárias, teses filosóficas, sentimentos religiosos, sentenças dos tribunais, moções políticas. Versos de Homero citaram-se nos discursos dos advogados e estadistas, como argumentos irrefutáveis.”

Os antigos, certamente, não poderiam imaginar que, no distante século XXI, continuaríamos recorrendo às obras homéricas como uma das maiores referências sobre o humano. No filme, uma de minhas cenas prediletas foi a passagem da embarcação diante da ilha das sereias. Trata-se do canto XII do poema, que deu origem à famosa expressão idiomática “o canto das sereias”. Nesse episódio, Homero reflete sobre a busca por valores perenes e, ao mesmo tempo, faz um alerta para tudo aquilo que diverge entre aparência e essência, para aquilo que é ardiloso por natureza, mas sedutor em sua forma.

Permeado pela bonita trilha sonora de Ludwig Göransson, Odisseu reflete:

“Aquilo que você mais deseja é justamente aquilo que não pode ter. E aquilo que você mais não pode ter é aquilo que já teve e perdeu.”

No poema homérico, o recado de Circe a Odisseu fala de uma ilha de “homens decompostos e suas peles marcescentes”, algo que denota um aviso poderoso: o prazer pueril e momentâneo, além de enganoso, não nos conduz à ruína de forma imediata; ele nos corrói lentamente, mata-nos aos poucos. Ora, qual mensagem poderia ser mais importante para a nossa época? Tempo em que somos bombardeados por charlatães aos montes, aparências enganosas e vícios de todos os tipos.

Ao ser amarrado, o herói grego reconhece suas fraquezas e dá um recado para os angustiados de hoje: trocar as recompensas baratas pelas coisas duradouras. É aí que reside a verdadeira riqueza.

Dessa forma, ao atravessar as trevas e flertar com a morte, Odisseu encontra o oposto: o caminho da verdadeira vida.