Crônica I Uma história da Zona Norte
TEXTOS
George Lucas Casagrande
Viver São Paulo é ser convidado a uma extensa e emblemática jornada cultural. Respirar nossa cidade é estar imerso em camadas de símbolos que se revelam nos nomes das ruas, nos monumentos e nas histórias que resistem ao esquecimento. A Pauliceia, hoje tão desvairada quanto nos tempos de Mário de Andrade, sempre guardou narrativas fascinantes, alimentadas pela imaginação popular. Antes de ser palco de um intenso modernismo, quando ainda era recortada por caminhos de terra e pequenas comunidades, lendas e histórias floresciam à margem dos registros oficiais e se perpetuaram até os dias de hoje. Na Zona Norte, uma delas atravessou gerações e deixou uma marca tão duradoura que acabou dando nome ao folclórico cemitério Chora Menino.
Na verdade, quando pesquisei a origem desse nome, me deparei com o fascínio sobrenatural de duas lendas que remetem ao século XIX, sendo uma delas especialmente sinistra. A primeira versão não parece apelar tanto para a imaginação, embora esteja envolta em dor e mistério. Ela remete à terrível epidemia de varíola que assolou São Paulo e fez da região palco de perdas precoces. Na época, as crianças foram as principais vítimas da doença e sofreram seu impacto mais cruel. Foram os pequenos que pagaram o preço mais alto da tragédia, carregando o fardo daqueles tempos difíceis. Um tempo de dor e de luta que marcou profundamente os moradores dali. Por isso mesmo, diz a lenda, nas noites de lua cheia ainda é possível ouvir o lamento das crianças enterradas no cemitério. Um choro que encontrou morada no imaginário popular e, simplesmente, batizou toda uma região.
A segunda história é horrenda e, talvez por isso mesmo, tenha caído na boca do povo. Conta-se que ali vivia uma velha. Enclausurada em seu casarão igualmente velho, possuía cabelos brancos e longos que se arrastavam pelo chão quando saía vagando pela noite. É importante dizer que a porta de madeira de sua casa possuía uma pequena portinhola, uma espécie de escotilha improvisada, utilizada para que pessoas abandonassem recém-nascidos à própria sorte. Mas eles não tinham tanta sorte assim.
No calar da noite, a velha, de cabelos compridos e semblante assustador, deixava o casarão. O motivo? Levava os pequenos pacotes para o vale atrás de sua casa, abandonando-os à mercê dos predadores que rondavam a mata. Ao piar das corujas e ao farfalhar das folhas juntava-se o choro dos meninos, que madrugada adentro choravam e choravam para a angústia dos moradores locais. Um lamento persistente atravessava a noite inteira, espalhando inquietação entre aqueles que viviam nas redondezas. E assim, a partir dos feitos dessa intrigante e sinistra personagem, o famoso cemitério da Zona Norte teria sido batizado.
Ainda há outras histórias curiosas sobre o lugar, mas a origem do nome continua cercada de controvérsias. Mais de um século se passou. Dezenas de milhares de almas foram enterradas ali, envoltas, tenho certeza, por todos os tipos de choros e prantos, dores e lamentações, aflições e desesperos.
Hoje, acredito que quem passa pelo local acaba imaginando alguma história. Talvez a de um menino que, ao se deparar precocemente com a morte da mãe, chorou tão copiosamente que fez seu sofrimento reverberar por todo o bairro. Ou quem sabe não tenha perdido a mãe, mas um amiguinho inseparável que, menino como ele, brincava pelas ruas de barro da região e, de repente, desapareceu da vida sem explicações nem respostas. Inexperiente nas artimanhas do mundo, teria chorado tanto, mas tanto, que acabou dando nome a uma região inteira?
Bom, seja de uma forma ou de outra, fruto da imaginação fértil dos populares de ontem ou de hoje, havemos de concordar que “Chora Menino”, ainda mais por se tratar de um cemitério, não precisa da força da repetição para evocar melancolia. O nome cria um certo vazio na alma, um desassossego no espírito, um convite à reflexão. Estaria aí o mistério do poeta? Conferir um sentido solene às palavras do nosso cotidiano?
Naqueles momentos de pensamentos vagantes, meus leitores hão de concordar: murmurar consigo mesmo “Chora Menino” produz uma espécie de emoção, uma saudade que não sei bem de quê. E, se você não conhecia esse pedacinho da Zona Norte, tenho certeza de que agora vai andar por aí se perguntando: que outros nomes da cidade despertam um sentimento assim?
