Crônica I Mar calmo nunca fez bom marinheiro

TEXTOS

George Lucas Casagrande

Quando empurrei a porta e adentrei o chalé em Boraceia, dei de cara com uma daquelas plaquinhas tão comuns em ambientes praianos. Adornada por um timão e um pequeno barco, ela trazia estampado um conhecido ditado popular, muitas vezes esquecido por nós: “Mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Ora, a expressão, por si só, direta e inteligente, já dispensaria qualquer explicação. Mar calmo nunca fez bom marinheiro: uma metáfora simples, quase óbvia, mas de uma grandeza infinita.

A frase parece servir a todos os campos da vida. Um ditado sem floreios retóricos, sem contorcionismos linguísticos, capaz de dizer algo poderoso com extrema economia. É no sofrimento e nas crises que aprendemos a viver e nos tornamos mais fortes. É no embate, nas marés agitadas da existência, que deixamos de ser meros passageiros e aprendemos, enfim, a conduzir o nosso barco. Tornamo-nos mais fortes. Tornamo-nos, portanto, bons marinheiros.

Foi impossível não anotar na minha caderneta, sempre à espreita, recolhendo reflexões e frases soltas. Algumas vindas da própria cabeça; outras brotadas do livro que eu lia naquele momento, O elogio da madrasta, de Mario Vargas Llosa. Anotei a frase e fui à praia. Para onde quer que eu olhasse, ela martelava meu pensamento: mar calmo nunca fez bom marinheiro.

Nesse longo dia passado à beira-mar, fui abordado por diversos comerciantes. Um deles era pastor. Antes mesmo de chegar até mim, avistei-o de muito longe. Caminhava por quilômetros numa praia quase vazia, sob um sol escaldante. Pelo movimento fraco daquele dia, imaginei que talvez não vendesse quase nada. Ainda assim, sorria. Contou-me sua história. Depois de uma longa e árdua batalha contra as drogas, fora salvo pela fé e hoje ajudava jovens vulneráveis. Caminhava pelas praias vendendo sacos plásticos para financiar seu projeto social. Disse-me que, na temporada, a praia é sinônimo de movimento. Mas que, durante o restante do ano, o isolamento do litoral, à deriva do mundo, torna-se um convite silencioso à depressão e, consequentemente, ao uso de drogas. Parecia cumprir uma missão. Mar calmo nunca fez bom marinheiro.

Pouco depois, aproximou-se uma moça jovem, espiritualista, de semblante quase angelical. Vendia miçangas e outras peças artesanais. Pensei que o litoral norte, com seu ambiente silencioso e ainda primitivo, fosse o refúgio perfeito para quem busca algum tipo de conexão com o mistério. Observei suas mãos delicadas e imaginei o tempo exigido para produzir aquelas peças minúsculas e detalhadas. A atenção paciente. O trabalho repetitivo e minucioso. Para depois acomodar tudo numa pequena grade e sair por aí, muitas vezes ignorada, tentando vender aquelas miudezas e voltar para casa com algum troco no bolso. Mar calmo nunca fez bom marinheiro.

Mais adiante, ao me dirigir a uma barraca de milho, encontrei um rapaz usando um colete do grupo carnavalesco da Freguesia, o Urubó. A coincidência foi imediata e agradável. Quando disse que também era do bairro, abriu um sorriso cheio de simpatia. Estava no litoral norte aproveitando a temporada. De dia, trabalhava na barraca. À noite, era caseiro em uma das mansões da região. Fiquei imaginando sua jornada noturna. Todas as noites, no isolamento em meio à mata, impregnado pelo cheiro úmido da serra. Como companheira, a chuva que costuma cair de madrugada. Talvez algum burburinho de casas vizinhas, mas sons ainda mais intensos de grilos, cigarras e pássaros ao amanhecer. Mal dormia e já tinha outra missão sob o calor escaldante do dia seguinte. Mar calmo nunca fez bom marinheiro.

Por fim, já no final da tarde, ao ir ao mercado ao lado da aldeia indígena de Boraceia, deparei-me com vários indígenas circulando pela região. Pensei nos tantos nomes indígenas das praias, das barras, dos rios, das serras. Meu pensamento recuou séculos e mais séculos. Imaginei aquele mesmo espaço sem ruas, sem asfalto, sem placas. Imaginei o estado natural do homem. Pensei nas tradições, nas músicas, nos rituais. Voltei mentalmente ao primeiro encontro com o homem branco: o choque das culturas, a ruptura, o assombro dos envolvidos. Mar calmo nunca fez bom marinheiro.

Antes de voltar à casa, passei pela costa e observei as ondas se sucedendo, símbolo metafórico e silencioso da passagem das gerações. Em pouco tempo, nem eu, nem você, nem aqueles personagens estaremos mais aqui. O tempo seguirá adiante, indiferente, com a única certeza de que o mar continuará feroz, e que é a partir dessa bravura que a espécie vai tirar forças para enfrentar essa coisa tão misteriosa e intrigante que nomeamos de vida.