Crônica I Carnaval na Freguesia

TEXTOS

George Lucas Casagrande

Fevereiro começou, e venho de noites agitadas. Alguns sonhos confusos, estranhos pesadelos. Na quinta-feira, despertei de madrugada e percebi que a noite gozava de um intervalo da chuva. Abri a janela, que fica do lado da minha cama, para sentir a brisa. Contemplei o céu aberto e a madrugada fresca de lua cheia. Meu quarto é pequeno, mas a vista da janela é privilegiada: dá de cara com a Igreja da Matriz. À noite, ela fica amarela e brilhosa, bem iluminada. Essas luzes lhe conferem uma característica ostentosa, e merecida. Não por menos: a igreja da Freguesia é um símbolo de resistência ao tempo, está ali há mais de cem anos. Ao redor dela, já se armavam grades e tapumes, preparados para receber toda a gente no fevereiro de carnaval.

Direcionando o olhar pela rua da Bica, vejo também a antiga casa da minha bisavó materna, que conheço por relatos da minha mãe. Um lugarzinho bem escondido que, assim como outras propriedades do Largo da Matriz, acabou se tornando um bar. Um portão pequeno dá acesso a um fundo arborizado, cheio de árvores. Minha mãe conta várias anedotas de sua avó. Uma personalidade curiosa que, quando ficava com os seis netos, parecia sempre brava. Prosaica e indiferente, tinha um jeito brusco; distribuía broncas a esmo, mas exalava uma bondade silenciosa, quase estranha aos dias de hoje. No quintal, havia uma horta em que ninguém ousava mexer. A festa ficava para o Natal, quando a família se reunia por ali e comemorava, vendo os fogos coloridos subirem da praça.

Ainda pela família materna, lembro que restaurei recentemente uma foto da década de 60 do meu avô. Ele estava bem jovem, com alguns amigos no Largo da Matriz. Pinta de playboy, alguns de óculos escuros. Os quatro num Ford, provavelmente fabricado na década de 30. A foto é incrível. Fiquei pensando no que faziam naquele dia. Se buscavam um lugar para beber algo. Se estavam em algum encontro, à procura de uma paquera. Se também era tempo de carnaval. A igreja aparecia lá no fundo, sustentada pelas mesmas colunas, os mesmos portões. As estátuas de São Pedro e São Paulo ainda não estavam ali. Foram colocadas anos depois, talvez para vigiar tudo. Os tempos mudaram. A igreja, que agora se prepara para receber o Carnaval, também se adaptou: o entorno mudou, ergueram grades, mas ela continua viva em sua essência. Caminho por ali com a impressão de que o espectro da minha família ainda circula pelo Largo.

Essa nostalgia se prolonga quando olho para o edifício Fiori, ali em frente à praça velha. Um prédio pequeno e branco, que na minha primeira infância parecia gigante. Foi naquele tempo que eu circulava pela padaria, hoje o bar onde encontro amigos, tentando, com minha irmã, arrancar um ursinho de pelúcia da máquina de garra. Foi ali, na praça, também, que ela apareceu com os primeiros gatos da casa. Convenceu todo mundo a ficar com eles. Mudou a rotina de tudo. Mudou, inclusive, a nossa forma de enxergar a vida. Todas essas lembranças se misturam aos eventos da Matriz, ainda muito vivos nos anos 90. Naquela época, a praça abrigava uma quantidade enorme de brinquedos. A roda-gigante era a grande atração. A cabine tremia, e alguns se punham a fazer piruetas lá dentro, para o desespero da minha mãe.

Umas lembranças ingênuas. Algumas ternas. Outras temerárias. Muito tempo se passou desde então. O mesmo lugar me viu, mais tarde, na adolescência. Frequentava a praça para beber e, no início da madrugada, partia dali para pichar as casas do entorno. Fico arrepiado ao lembrar desse tempo de doidice. Pulava muros para riscar paredes. Subia nas grades, me arriscava numa tentativa boba de pertencimento. Alguns dos que estavam comigo hoje nem estão mais vivos. Outros sumiram na confusão da vida. Mas toda malandragem da adolescência tem seu lado bom. Lembro das tantas meninas que circulavam por ali com a gente. O fim do caderno rabiscado de grafite. A noite entrando adentro. O copo passando de mão em mão. A fumaça se desfazendo no céu…

Mas cresci e continuei por aqui, entre um momento e outro, embalado por diferentes estilos musicais dos bares do Largo. Do rock do querido Gruta ao samba do charmoso Nordestino, passando pela MPB do velho salão do Alemão. Este ano, confesso, estou ansioso pelo carnaval da praça. A euforia, a dança, o gregarismo e o frenesi parecem alcançar um ponto máximo de combustão. Há algo ali que revela o que devem ter sido, lá atrás na história, as festas pagãs: os cultos dionisíacos, os bafos de álcool misturados aos perfumes, os corpos em excesso, milhões de orgasmos, milhões de promessas. E sei que, no dia seguinte à festa, a igreja estará lá. Atravessada pela experiência, mas ainda imponente, à espera do próximo ciclo.

Pois é, a Freguesia do Ó, marcada por tantas histórias pessoais e coletivas, é um dos bairros mais antigos de São Paulo. Foi caminho de bandeirantes, garimpeiros e religiosos, em suas expedições em busca de ouro no Pico do Jaraguá. Muda-se o tempo. Mudam-se os homens. Acrescento anedotas e peripécias à minha vida pessoal. E o bairro continua aqui, com sua igreja reluzente recebendo todo mundo que fica, todo mundo que passa. Não preciso nem dizer fui interrompido pelo despertador. Acordei depois de uma noite agitada, suavizada pelo ar da madrugada, ainda com o coração batendo forte. Era hora de partir, cumprir o dia e, em silêncio, aguardar o carnaval que vem aí.

Meu avô (no volante) e amigos na década de 1950.

Carnaval da Freguesia: entre o espírito e a carne.

Ruas próximas ao Largo da Matriz - tradição e caminho do ouro.