Crônica I As notas musicais de um sábado
TEXTOS
George Lucas Casagrande
Foi Nietzsche quem certa vez escreveu o que se tornou uma de suas frases mais conhecidas: “E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” Para o filósofo, entusiasta dos impulsos dionisíacos, regados a muita música e vinho, funciona exatamente assim: quem escuta a música, e tudo o que ela evoca, do transe à evasão, do corpo às paixões, experimenta uma espécie de elevação. Já quem não escuta permanece à margem, incapaz de compreender essa experiência alheia, esse desvio que lhe parece estranho. Um desvio, aos seus olhos, insano.
Foi sob esse espírito de elevação que, no último sábado, me deixei levar por uma tarde de comilança, vinhos e muita música no evento “Wine Jazz Sessions”. Depois de semanas engolido pela rotina, recluso em casa, fui seduzido pelo festival musical e gastronômico, realizado no Parque Villa-Lobos. Não me arrependi. Entre goles e acordes, minha irmã e eu vivemos um dia difícil de nomear. Diante do amplo gramado do parque, parecíamos imersos em uma obra impressionista. Saímos mais leves, mais risonhos, mais felizes, nada estranho para quem passou o dia em uma experiência profundamente catártica.
Chegamos cedo, por volta das 13 horas. Naquele espaço do Villa-Lobos, próximo à roda-gigante e destinado a eventos ao ar livre no estilo de festivais europeus, posso dizer, meus amigos, que fomos felizes. Ninguém resiste a um jazz; ninguém deixa de se encantar por um blues. E poucos recusam um bom Malbec. Sob a luz do sol, em meio à variedade de bebidas e músicas, tudo ao redor se tornou um espetáculo à parte. Essa mistura de jazz, blues e vinho parecia nos lembrar de algo simples, mas essencial: a vida pode ser boa, pelo menos de vez em quando.
Quando o sol começou a cair, o evento se transformou ainda mais. As luzes das barracas se acenderam, e tudo ganhou um charme irreal. Também sobrou tempo, é claro, para esquadrinhar a vida alheia. Oportunidade para os estetas olharem o humano. No gramado, meu olhar percorreu o espaço de leste a oeste, e me peguei observando os casais que se espalhavam aos montes, um cenário quase ideal para primeiros encontros. Alguns sorriam, abraçados, enquanto conversavam entre si. Outros caminhavam com as mãos soltas, sem muito diálogo. Havia também aqueles entretidos com os próprios celulares, enquanto outros gesticulavam com mais gravidade, próprios de quem já compartilha intimidades antigas.
Enfim, observações banais e estereotipadas, certamente pouco importantes. Porém, suficiente para captar a metafora: a roda-gigante girando. Lentamente, é verdade, mas sem parar. Seus movimentos suaves como os ciclos da vida. Ciclos que sobem, descem e, inevitavelmente, se repetem sob novas formas. Alguns entram na cabine, outros saem. Todos, no começo da subida, se encantam com a paisagem, para depois de algum tempo colocar novamente os pés no chão. E assim como a vida, a roda segue seu fluxo sem fim, de começos e recomeços. De entradas e saídas. De altos e baixos.
O fim da segunda garrafa tomou o lugar do meu fluxo de consciência. Levantei e percebi que as luzes já haviam se misturado ao escuro da noite. O público, no ritmo da banda, começou a se deixar levar pela dança. A música ao vivo, após um breve intervalo, tomou conta novamente. E, nessa celebração evasiva entre corpo, espírito e música, encerramos um sábado bem vivido, fiéis ao que Nietzsche metaforizou: viver intensa e livremente, pelo menos de vez em quando.
