Crônica I Antes do crepúsculo, a loba

TEXTOS

George Lucas Casagrande

O sol dourava a Barra do Una, no litoral norte, numa quinta-feira de Janeiro. Ao lado, entre burburinhos femininos, a conversa girava em torno da idade. Constatei que a dona de uma voz doce e grave havia chegado aos quarenta.

De repente, levantou-se. Meu peito também, ou melhor, deu um salto. Perguntei-me se nós, homens rudes e imóveis naquele instante, estávamos preparados para uma presença tão ilustre. Seu olhar, firme e direto, apontava para o mar. Acompanhei a luz do sol descendo pela geografia do seu rosto. O nariz fino e longo tinha algo de governanta: havia ali domínio, comando. Parecia reger a música do mar, que em breve a receberia para depois devolvê-la aos mortais, coberta de gotículas brilhantes sobre o corpo.

Quanto esforço foi preciso para que a espécie chegasse a esse ponto, tão próximo da perfeição? Que paciência houve para unir aquela linha de queixo a uma orelha breve, exata?

O pescoço, alto e esguio, descia até os ombros numa curva lenta, como uma rua em leve declive. Ao caminhar, o cabelo solto movia-se com o vento, de um lado a outro, como num ritual. Aos poucos, os pequenos pés tocaram a água, que logo acariciou os peitos fortes e grandes, a cintura grácil, de onde se abriam, como duas metades de uma fruta madura, as curvas largas dos quadris, as coxas, as nádegas. Por fim, todo o seu território secreto e íntimo: espaço mágico, bosque dos sentidos.

Autenticidade. Liberdade. Poder. A idade da loba. Lobas podem ser domadas? Não sei. Sei que são selvagens. Um espírito ardente me atravessa e aquece o sangue. Flutuo nos pensamentos e faço dessa loba um território de entretenimento e prazer. As águas do mar são substituídas pelas águas do nosso suor; os nossos corpos, entrelaçados em meio a apertos e gemidos; minhas mãos nas suas pernas, suas pernas cerradas às minhas costas. Até que todos esses movimentos nos levem a um último suspiro, alto o bastante para atravessar os mares e despertar todas as alcateias de lobas.

Será que teve muitos homens na vida? Não traz alianças. Deve ter atravessado savanas, florestas, desertos e regiões geladas, lutando contra ilusões e promessas não cumpridas. Em algum momento, deu um basta. Optou por uivar sozinha. Mas essa voz doce e esse caminhar flutuante só podem ser de alguém com sentimentos sinceros e românticos. Esse corpo firme e essas expressões dignas carregam, no fundo, um coração que anseia cantar.

Embora fantasia e verdade tenham o mesmo coração, seus rostos são opostos, como o dia e a noite, a água e o fogo. Meu livro caiu. Voltei. Ajustei-me na cadeira, dei um gole no vinho e percebi que ela ainda se banhava no mar. O crepúsculo surgia. Em breve, nos despediríamos.

Não havia mais nada a dizer. Apenas olhar, olhar como quem reza e agradece. E, antes que a noite descesse de vez, partir, depois dormir, talvez sonhar.