Conto I O Cuidador

TEXTOS

George Lucas Casagrande

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Os Gaviões do Asfalto tinham caído na estrada de novo, pra mais uma aventura. Era a terceira vez que acampavam na mata de Pedra Negra, um pedaço meio largado às margens do Rio das Almas. Como sempre acontecia nesses encontros mais rústicos, Rufo foi logo acendendo a fogueira. E assim começava mais uma noite de histórias sinistras, tradição antiga nas madrugadas de acampamento da turma. A homarada do clube, como era de se esperar de um bando de barbudos que vivia rodando o Brasil de ponta a ponta, carregava histórias cheias de cicatriz e aventura. Na roda, o papo ia de amores mal resolvidos até causos de fantasma e vulto, daqueles que fazem qualquer um ali ficar meio arrepiado.

Misto tinha acabado de contar um caso estranho, desses que ele jurava ter vivido na estrada. Foi aí que alguma coisa chamou a atenção do grupo. Era o barquinho do velho caseiro. Eles já estavam acostumados a ver a embarcação parada lá perto da fazenda, do outro lado do rio. Mas, dessa vez, tinha algo diferente: o barquinho vinha cortando a água bem devagar, vindo na direção da margem onde eles estavam acampados. Encostou sem pressa. O velho desceu da pequena embarcação, caminhou malemolente até a roda e disse:

— Ô, barbudos… eu gosto demais de uma prosa de fogueira. Fiquei ali de longe, só espiando ocês, e pensei comigo: “ali tem conversa boa”. Se ocês não se incomodá, eu queria contá uma das minhas. Bem de mansinho, peço licença pra ficá aqui com ocês essa noite.

Os brutamontes, que de maus não tinham nada além da aparência, receberam o velho do barco com simpatia. Logo abriram espaço na roda, ofereceram uma cerveja e ficaram ali, atentos, curiosos pra ver o que ia sair da boca daquele visitante inesperado. O velho tomou um gole da cerveja, deu uma ajeitada no corpo e continuou:

— Óia… eu podia ficá aqui a noite inteira contando minha vida pra ocês. Uma vida que, pra falá a verdade, já tá mais pro fim do que pro começo. Mas pra isso, meus amigo, eu ia precisá de três coisa: tempo, ânimo e garganta. O ânimo… esse já anda meio frouxo faz tempo. E o tempo… ah, esse aí tá curto demais pra uma vida tão comprida igual a minha. Num cabe detalhe, não. Capaz até de eu nem tá mais vivo quando o sol raiá lá naquela serra. Desse jeito… só me sobra a garganta, e essa agora até que tá ajudando, por causa desses gole de cerveja que ocês, com tanta bondade, me ofereceram. Então, já peço perdão desde já… se alguma coisa que eu falá saí meio atravessada. Mas se ocês tão querendo uma história de gente… então aí vai uma história de gente.

Os barbudos se entreolharam. Ansiosos, ficaram em silêncio, só esperando o velho começar. A fumaça da fogueira subia devagar, se perdendo no céu azul salpicado de estrela, em contraste com o escuro pesado da mata ao redor.

Foi então que o velho começou a história…