Conto I Casa Nova Utilidades
FICÇÃO
George Lucas Casagrande
1/2/20268 min read
Era uma sexta-feira, e o calendário indicava a proximidade do Natal. Faltavam três dias para a tão esperada confraternização. Como se pode imaginar, a Rua Floriano Peixoto, conhecida por seu intenso comércio, estava a todo vapor. Na tradicional Casa Nova Utilidades não era diferente. Estava inaugurado o burburinho do final de ano: clientes entravam e saíam, famílias se enfileiravam nos balcões, crianças corriam pelos corredores.
Naquele dia, o sr. Aníbal voltava radiante do almoço. Tinha encontrado, no restaurante Sabor do Largo, ponto de encontro habitual de funcionários e trabalhadores da rua, Ernesto e seu filho, Daniel.
O rapaz, que havia retornado recentemente do Canadá, passava férias no Brasil. Dava mostras disso: carregava o ar de quem já não pertencia ao país. Seus gestos eram contidos, quase calculados, e sua expressão mantinha uma certa serenidade. Não era áspero, mas exalava soberba. Daniel era pomposo, dono de uma educação distinta. Não por acaso: Ernesto investira nos estudos do filho, que fora para o Canadá e lá concluiu a sua formação em engenharia.
Aníbal narrava o encontro com empolgação. Elogiava a roupa do rapaz, seus modos, seus estudos. Às vezes se exaltava além da conta, gesticulando de um jeito meio caricato. Estava irreconhecível em comparação ao homem que, pouco antes, ainda educado e amável, apressava os funcionários para dar conta da fila do balcão.
— Educadíssimo! Imaginem olhar para a parede do cunhado e ver um diploma daqueles, bem em destaque. Um orgulho! Minha filha no Canadá, em meio a uma família de alces.
Seus discursos eram dirigidos aos funcionários mais próximos, mas, em determinado momento, passou a falar diretamente com André, seu funcionário de confiança, o seu braço direito.
Dizia que a filha, Renata, merecia um rapaz como Daniel. Que, embora vivesse no mundo da lua, mergulhada em romances e distrações, sonhava vê-la ao lado de alguém assim. Afirmava que, apesar do jeito de moleca travessa, uma hora ela haveria de amadurecer. Precisaria, em breve e enfim, escolher um rumo na vida. Repetia que começara a trabalhar cedo, que seus pais não tinham sido tão lenientes quanto ele era com a filha. E assim, com o peito cheio de orgulho, narrava pela milésima vez no ano, sua própria história.
Quando Aníbal pareceu se perder de vez em suas fantasias, já descrevendo a filha entrando na igreja e trocando alianças com um tipo como Daniel, André se viu, quase sem perceber, digitando as notas fiscais dos clientes com força excessiva. O semblante se fechou. Parecia que o teclado iria quebrar.
André estava na Casa Nova Utilidades havia muitos anos. Esforçado, perfeccionista e cuidadoso, não demorou a cair nas graças de Aníbal, transformando-se no funcionário mais confiável da loja. Aníbal, que guardava a avareza típica dos comerciantes experientes, via em André um verdadeiro guardião do negócio. Nunca, em hipótese alguma, constatara um centavo a menos no fechamento do caixa.
Era um rapaz de origem humilde. Foi se virando como pôde na vida e encontrou nos livros um refúgio para os seus fantasmas. Fora do expediente, lia com frequência quase obsessiva. Era íntimo dos clássicos: ia de Flaubert a Goethe, de Machado a Graciliano. A literatura, para ele, funcionava como uma espécie de armadura contra a vida: um remédio para sua simples existência, uma conselheira para seus dilemas.
Porém, no dia seguinte àquela movimentada sexta-feira, algo aconteceu. Logo cedo, ao chegar à Casa Nova, André pegou Aníbal de surpresa. Seco, anunciou que permaneceria na loja apenas até a véspera de Natal.
— Sr. Aníbal, no dia 24 nos despediremos. Após o movimento, esvaziarei meu armário. Peço apenas que não insista mais no assunto.
Depois disso, seguiria outro rumo na vida. Aníbal, pasmo e incapaz de compreender os motivos daquela demissão repentina, tentou de todas as formas demovê-lo da ideia. Chegou a se mostrar quase desesperado diante da perda de um funcionário tão valioso. Dizia que André era um diamante em meio a uma geração preguiçosa e desinteressada. Disse que reduziria sua carga horária na loja. Disse que poderia cogitar um aumento salarial. Nada, porém, alterou a decisão do rapaz, resoluta desde o primeiro instante. Passaram o dia imersos no trabalho, em um silêncio constrangido, meio atentos às tarefas, meio sem saber como se dirigir um ao outro. Ao fim, restou a Aníbal aceitar a escolha.
Em casa, depois daquele dia estranho e exaustivo, conversava com Renata. Estava ansioso para, entre outros assuntos, tecer elogios a Daniel diante da filha. Queria observar sua reação, perceber algum brilho de interesse pelo rapaz elegante. Não há ninguém no mundo que possa desgostar desse rapaz! Alimentava a esperança de ver aquele casal se formando. Enumerou qualidades, contou feitos, exaltou virtudes, e Renata permaneceu impassível. Deve ser por causa da leitura, pensou ele, ao vê-la com um livro nas mãos. Mas tudo bem: essas coisas levam tempo, acontecem aos poucos.
No entanto, quando começou a relatar, também, o ocorrido com André, foi pego de surpresa. Renata fechou o livro com força e, num salto, passou a prestar total atenção ao pai. Disparou perguntas, uma atrás da outra:
— Ele disse para onde vai? Vai embora do bairro? Da cidade? Disse por quê? Por que sair assim, de repente?
Eram tantas indagações que já não conseguia disfarçar o interesse. O tom rapidamente se tornou acusatório. Apontava o dedo para o pai, sugerindo que ele havia feito algo errado. Cobrava uma reação mais firme, dizendo que Aníbal aceitara essa situação com muita facilidade. Em síntese, num impulso repentino, passou a se interessar pela conversa com o pai e a defender a permanência de André na loja.
Perto da hora do jantar, alegou falta de apetite, largou o livro sobre o sofá e se recolheu ao seu quarto. Depois de comer, Aníbal foi juntar as coisas da filha esquecidas na sala. Menina avoada, só não perde a cabeça porque é grudada no corpo.
Ao pegar o livro nas mãos, sentiu um leve sobressalto. Era-lhe familiar. Tratava-se de um volume que já vira, mais de uma vez, nas mãos de André: uma edição antiga, já meio amarelada, de Os Sofrimentos do Jovem Werther. Aquilo o deixou matutando: como um livro de André havia parado nas mãos dela? Será apenas uma coincidência? Tratava-se de duas edições distintas? Aníbal calçou as pantufas e seguiu para o quarto, intrigado. Comerciante calejado, sabia que seu jeito afável de paizão não era sinônimo de ingenuidade. A atitude da filha, que vinha andando dispersa, distraída demais até para os próprios padrões, parecia, no mínimo, estranha.
No dia seguinte, a surpresa foi ainda maior. Ao chegar à loja, já tomada pelo movimento típico da proximidade do Natal, deu de cara com Renata trabalhando. Em geral, ela o ajudava apenas com papéis e pequenas tarefas burocráticas em casa. Naquela manhã, porém, Aníbal a viu de longe, atrás do balcão, atendendo clientes com atenção genuína, envolvida no trabalho como raramente estivera.
O dia era típico de semana de Natal, com a correria habitual do comércio. No decorrer da tarde, para a alegria de Aníbal, foram fazer compras Ernesto e Daniel. Não poderia haver ocasião melhor para apresentar-lhes Renata. Depois de circularem pelo estabelecimento e escolherem, sem pressa, os itens de que precisariam para as festas, dirigiram-se ao balcão, onde estavam Aníbal e sua adorável princesinha.
A conversa começou de modo cordial, entre sorrisos e comentários triviais, enquanto André observava a cena à distância. Daniel, após trocar algumas palavras educadas com Renata, reparou no livro que ela mantinha atrás do balcão. Comentou, sem grande interesse, e com um leve deboche, que não gostava de histórias de sofrimento. Disse que também apreciava a leitura, mas que seu gênero favorito estava bem distante de qualquer coisa que lhe parecesse sofrível: era adepto de livros de autoajuda financeira, desses que prometem sucesso repentino. Nesse instante, André se intrometeu na conversa:
— Meu caro rapaz, não me restrinjo a gêneros. Saiba apenas que este livro, já amarelado pelo tempo, tem mais de um século e foi responsável por influenciar uma geração inteira.
Com voz calma, mas firme, falou em defesa do romantismo alemão. Disse que aqueles livros não tratavam de um sofrimento pueril, mas de paixões levadas às últimas consequências. Aqueles livros eram de homens corajosos, dispostos a arriscarem tudo por um ideal. Dispostos a ficarem loucos por uma causa. Dispostos, sobretudo, a morrerem por uma paixão. Terminou seu discurso com um brado em defesa da literatura. Uma arte. A arte da palavra. Fundamental para a compreensão da natureza humana. Alimento para espíritos rebeldes e indóceis.
Daniel ouviu em silêncio, com as sobrancelhas em pé, indicando uma expressão meio envergonhada, entediada e contida. Pouco depois, despediu-se de todos com polidez, seguido por Ernesto. Antes de sair, porém, voltou-se para André e comentou, em tom irônico, que ele parecia ter uma cultura admirável para alguém que trabalhava naquele lugar. Acrescentou que o Canadá, abundante em bibliotecas, poderia ser um bom destino para um amante de livros.
Aníbal ouviu o comentário e ficou incomodado com a expressão. Naquele lugar.” As palavras ecoaram. Além de tomar as dores de André com seu instinto de paizão, passou o resto do dia ruminando aquilo. Naquele lugar, repetia em pensamento. Naquele lugar criei minha filha sozinho. Naquele lugar ganhei o prêmio de comerciante da região. Naquele lugar, afinal, estava toda a minha vida. Estava toda a minha história. Ah, que fosse ao diabo o Canadá e sua neve. Não troco minha amada loja por lugar nenhum no mundo.
Chegara, então, o dia 24. Renata, com o semblante pensativo, alegou estar indisposta, e Aníbal não insistiu. Não quis cobrar muito da filha; afinal, a menina carregara um piano no dia anterior, trabalhando cheia de zelo, amabilidade e cuidado.
Quando o relógio marcou cinco da tarde, André se despediu. Ele e Aníbal trocaram poucas palavras, ambos cabisbaixos, com um ar melancólico difícil de disfarçar. Mas assim era a vida: funcionários vinham e iam, e, no fim das contas, cada um era dono do próprio destino. Ao ver André se afastando pela rua, Aníbal notou algo que lhe pareceu estranho: antes de dobrar a esquina, o rapaz lançou um último olhar para a janela sobre a loja, como uma última despedida.
Mais tarde, já sozinho, fechando o estabelecimento em meio a um silêncio absoluto, Aníbal reparou no livro que Renata deixara esquecido no balcão. Pegou-o quase sem intenção. Ao folheá-lo, deparou-se com uma carta colada entre as páginas. Destacou-a com cuidado e leu:
“Minha pequena patroinha,
luz dos meus olhos, senhora da minha alma.
Receba este livro e, nele, tente compreender o tamanho do que sinto. Werther me ensinou que há amores que não cabem no mundo. E o nosso é um deles.
Antes do Natal, prometo criar coragem e contar tudo. Seremos felizes!
Com carinho,
A.”
O coração de Aníbal subiu à garganta. Por um instante, faltou-lhe o ar. Não conseguiria mais mentir para si mesmo, nem fingir que aquilo não estava diante de seus olhos havia tempo demais.
Já em casa, ainda tomado pelos pensamentos, decidiu agir. Renata permanecia recolhida no quarto. Antes que a noite avançasse, Aníbal tomou um banho, vestiu-se com cuidado e saiu em direção à casa de André. No caminho, repetia para si que seria breve e firme. Serei direto! Queria deixar claro que aprovava o relacionamento, desde que houvesse respeito, transparência e que tudo fosse acompanhado de perto por ele, o pai. Diria também que esperava de André compromisso com o futuro, que retomasse os estudos, que buscasse mais estabilidade, oferecendo à filha um horizonte mais seguro.
Ao tocar a campainha, Aníbal logo viu André descendo as escadas. Num gesto de emoção incontida, o rapaz se lançou em seus braços, abraçando-o com força, como quem se livra de um peso antigo. Surpreso, Aníbal correspondeu ao abraço. Tudo o que ensaiara dizer no caminho se dissolveu naquele instante. O dono da loja, já tomado pela emoção, conseguiu apenas balbuciar um “sim”.
De repente, ouviram um grito:
— Papai!
Ah, menina moleca. Menina levada. Renata havia seguido o pai até ali.
Num impulso, também ela, já às lágrimas, se atirou nos braços de André. Ele a envolveu com cuidado e num gesto impetuoso, beijou-a de modo intenso, de modo, simplesmente wertheriano.
Aníbal observava a cena com um sorriso largo e um aperto bom no peito. Depois de alguns segundos, pigarreou e disse, tentando trazer todos de volta ao chão:
— Vamos logo. Já perdemos tempo demais. Hoje é noite de Natal.
E assim, os três seguiram juntos para a casa de Aníbal, felizes e sorridentes. O comerciante observava, um pouco atrás e distante, o caminhar do casal apaixonado. Naquela noite, iniciaria uma nova e improvável etapa de suas vidas.
