Caderno de Ideias #20 - Meio Macbeth, meio Rei Lear: essa é Succession
CADERNO DE IDEIAS
George Lucas Casagrande
9/4/20262 min read
Quem de nós não gostaria de ter muito dinheiro, a ponto de não nos importarmos e nem nos darmos conta de quantos dígitos temos em nossas contas bancárias? Sair por aí ociosamente, sem precisar acordar tão cedo, e sem se preocupar com as obrigações ordinárias do dia a dia. Confessa, esse é um sonho de qualquer brasileiro médio, largar a labuta e viver a vida adoidado.
Succession é uma daquelas séries que nos dão um gostinho de como os bilionários vivem a vida. Uma vida de um luxo sem igual, é verdade. Mas os personagens são tão odiáveis e mesquinhos que nos fazem pensar duas vezes: será que vale mesmo a pena ter uma vida como essa? Diante de Succession, em meio àquela paleta de cores amarelada e à trilha sonora melancólica, somos tomados por um sentimento de tristeza.
Foi esse o comentário do meu pai em um dia em que assistíamos a alguns episódios da série no sofá:
“Não sei o motivo, mas essa série me dá uma tristeza...”
Pouco depois, vieram à minha cabeça alguns trechos do excelente livro de A. C. Bradley, A Tragédia Shakespeareana, que caem como uma luva para o sentido da série, que é meio Macbeth, meio Rei Lear.
Aí vai uma análise das tragédias shakespearianas que se encaixa perfeitamente em Succession:
"Ninguém jamais fecha o volume com o sentimento de que o homem é uma criatura fraca e vil. Pode ser desventurado, ou sórdido, mas não é pequeno. Sua sorte pode ser angustiante e cercada de mistério, mas não é desprezível. Em Shakespeare, sob qualquer ângulo que se olhe, a piedade e o terror suscitados pelo enredo trágico parecem ora se unir a uma profunda sensação de tristeza e mistério, ora fundir-se nessa sensação, que se deve ao sentimento de desperdício."
"Quão maravilhoso é o homem, exclamamos, "tão mais belo e mais terrível do que vislumbrávamos! Por que reuniria essas qualidades se tamanha beleza, tamanha grandeza, não fazem senão torturar e espezinhar a si mesmas?"
"Em toda parte, do pó das pedras sob nossos pés à alma do homem, vemos o poder, o intelecto, a vida e a glória a nos maravilhar e infundir o sentimento de veneração. E em toda parte nós os vemos tombar, devorando uns aos outros e destruindo-se mutuamente, muitas vezes com indizível sofrimento, como se não existissem para outro fim. A tragédia é a forma típica desse mistério, porque a grandeza da alma que ela nos apresenta oprimida, em conflito, massacrada, é a mais elevada forma de existência que temos diante dos olhos."
Quem assistiu a série vai concordar comigo... e com A.C. Bradley.
