Artigo I Os Anos Novos: um casal, dez anos e muitas perguntas

TEXTOS

George Lucas Casagrande

Mudanças repentinas. Escolhas incertas. Planos por água abaixo. Exaustão. Frustrações. Tudo isso em meio a um tempo que se mostra cada vez mais frenético. Piscamos os olhos e o ano já passou. E assim recomeçamos, de novo, de novo e de novo. A série Os Anos Novos representa com precisão esse estado de espírito contemporâneo. Já no primeiro episódio, percebi que se trata de uma obra feita sob medida para quem, assim como eu, atravessa a década dos 30 no século XXI. É uma tentativa, a meu ver muito bem-sucedida, de captar e traduzir a mentalidade dos chamados millennials, uma geração marcada por incertezas e dilemas constantes.

Disponível na Mubi, Os Anos Novos acompanha, mais especificamente, um casal típico dessa geração ao longo de uma década. Mas sua força não está apenas nesse recorte temporal. A grande sacada da série reside em sua estrutura: cada episódio se passa durante uma virada de ano, momento simbólico de reflexão e expectativa. De 2015 a 2024, acompanhamos Oscar e Ana nesse intervalo suspenso entre o que passou e o que ainda pode vir. A metáfora se intensifica pelo fato de que o tempo, para eles, não marca apenas o calendário: Oscar faz aniversário no dia 31 de dezembro, enquanto Ana apaga as velas no dia 1º de janeiro. Crescer, envelhecer e reavaliar a vida tornam-se, assim, experiências indissociáveis do próprio relacionamento.

Oscar e Ana se conhecem na véspera do Ano Novo de 2015 e se apaixonam. Ele é médico, estabilizado, porém exausto, saturado da própria profissão, mais contido e com um círculo de amizades restrito e familiar. Ela é expansiva, inquieta, muda de profissão com frequência, sonha em morar fora e está constantemente cercada de novas pessoas, ideias e possibilidades. Juntos, entre afinidades e desentendimentos, enfrentam dilemas comuns a muitos casais de sua geração. Como sustentar a energia necessária para um relacionamento diante de uma rotina profissional exaustiva? Como conciliar sonhos e projetos individuais com a exigência de uma vida a dois estável?

Comparações. Autocobranças. Inseguranças. A cada episódio e a cada Ano Novo, vemos a relação se transformar. Os impasses de um vínculo amoroso são colocados à vista de maneira quase literária, numa sucessão de altos e baixos, aproximações e distâncias, rupturas e recomeços. Para quem viveu algum relacionamento recente, assistir a Os Anos Novos torna-se uma espécie de meditação sobre a complexidade emocional da nossa geração. Da empolgação do primeiro réveillon juntos a um jantar em família que escancara camadas e conflitos geracionais, Oscar e Ana revelam como o mundo de hoje pode corroer até um amor genuíno. Eles se amam. Eles querem estar juntos. Mas, pouco a pouco, as circunstâncias e o meio vão levando a melhor.

Urbanidade, cafeterias, trabalho, sexo e drogas. Elementos banais da vida aos 30, encontros e eventos intimistas entre amigos atravessam a trama e dão corpo ao cotidiano dos personagens. Sorogoyen constrói uma narrativa profundamente realista, apoiada em planos fechados e na baixa iluminação, recursos que reforçam a proximidade emocional entre os personagens e a atmosfera íntima, por vezes angustiante, de cada virada de ano. Você, caro leitor com mais de 30, já se viu diante de questionamentos assim? Olhar ao redor e ver os amigos formando famílias. Planejar uma viagem e, pouco depois, sucumbir à rotina exaustiva do ano. Conhecer pessoas diferentes e, de repente, piscar os olhos e não ver mais ninguém ao redor. Questionar as próprias escolhas. Desejar mudar de profissão. Gostar de alguém e enfrentar conflitos que não têm explicações claras ou respostas exatas.

Amanhã, o último episódio de Os Anos Novos estará disponível na Mubi. Enquanto escrevo este texto, não sei se Oscar e Ana permanecerão juntos. Mas a força da série não reside nesse dilema, e sim em revelar, sem romantizações, a dificuldade de se encaixar em um mundo aparentemente simples e repleto de possibilidades, mas, justamente por isso, psicologicamente cada vez mais complexo. No fim das contas, Sorogoyen nos entrega um espelho e um desafio: olhar e refletir, ano após ano, sobre quem somos.

Em breve, voltarei para atualizar o artigo e comentar o último e esperado episódio da série.

Cena da série espanhola Os Anos Novos.