Artigo I “Obediência”, La Boétie e a fragilidade da liberdade Humana

TEXTOS

George Lucas Casagrande

Um filme baseado em uma história real. Uma história do século XXI, mais precisamente de 2006. O cenário não é um regime autoritário distante, nem uma sociedade mergulhada na ignorância. Pelo contrário: trata-se de um país que se orgulha de suas instituições, de sua legalidade e de sua ordem. Um ambiente comum, que poderia ser o nosso próprio ambiente, parte da nossa rotina. Embora estejamos nos Estados Unidos, poderíamos estar em qualquer lugar do mundo. Esse é o cenário de um filme que, só pelo título, já indica que vai pregar uma peça no espectador: falo de Obediência, lançado em 2012, dirigido por Craig Zobel.

O enredo se inicia em um dia comum em uma lanchonete do McDonald’s. Funcionários chegam para mais um turno corrido, imersos em uma rotina já conhecida. A gerente confere a chegada do caminhão do fornecedor, organiza as entregas, supervisiona os estoques. Os funcionários vestem os uniformes, participam de uma rápida reunião de alinhamento e, como em qualquer outro dia, seguem para seus respectivos postos. Até que o telefone toca. Do outro lado da linha, uma voz se apresenta como autoridade policial e informa à gerente que uma funcionária teria cometido um furto contra uma cliente. A partir desse telefonema, desencadeia-se uma sucessão de acontecimentos cada vez mais absurdos e perturbadores.

Mas, antes de avançarmos na análise do filme, é preciso recorrer à filosofia. Ao assistir à obra, lembrei-me imediatamente de um dos textos mais incisivos já escritos sobre liberdade e submissão: o atemporal Discurso sobre a servidão voluntária, do francês Étienne de La Boétie. Poucas reflexões me parecem tão penetrantes sobre a natureza da tirania e, sobretudo, sobre a natureza daqueles que se submetem ao tirano. É essa a questão que anima o ensaio: como é possível que homens, cidadãos, nações inteiras suportem privações incontáveis impostas por uma única figura grotesca e patética?

Em suma, não somos apenas vítimas da tirania; somos também seus sustentáculos. Aceitamos posições de submissão com uma passividade muitas vezes inacreditável. A opressão encontra, não raro, terreno fértil na nossa própria disposição para obedecer, para sermos subjugados, para sermos humilhados. Ao retornarmos ao filme, percebemos como essa tese se materializa diante de nós. O que começa como um simples procedimento administrativo transforma-se, pouco a pouco, em um experimento moral angustiante.

Após a acusação, a voz do outro lado da linha assume o controle da situação. Metódica, segura, quase burocrática, passa a ditar instruções que parecem, a princípio, apenas parte de um protocolo policial. Mas, a cada nova ordem, o filme atinge um novo degrau de constrangimento e estranhamento, conduzindo personagens e espectadores a um território cada vez mais desconfortável. Primeiro, determina que Becky seja revistada. Em seguida, que retire o avental; depois, os sapatos. Calmamente, ordena que permaneça nua, que fique sentada, que não se cubra. O absurdo cresce passo a passo, legitimado por uma autoridade invisível, desconhecida até para o espectador e que, ainda assim, não é questionada por ninguém. Seria ele realmente um policial?

Embora as reflexões de Étienne de La Boétie se concentrem na relação entre governantes e governados, elas se encaixam com precisão inquietante no que Obediência expõe. E, se você pensa que o texto de La Boétie se aplica apenas às grandes tiranias históricas, é melhor reconsiderar: ele ilumina também as pequenas tiranias cotidianas, aquelas que se instalam sem barulho. O dilema, ontem como hoje, permanece intacto: por que tantos se submetem aos caprichos de um só, seja ele um político, um chefe ou um amante? Em que momento o ser humano, dotado de inteligência e racionalidade, abdica da própria liberdade de maneira consentida?

À medida que a narrativa avança, as exigências tornam-se progressivamente mais bizarras. O homem do outro lado da linha impõe novos comandos: que ela faça polichinelos, que corra em círculos, que agache e se levante repetidamente; por fim, que suporte agressões físicas. O mais perturbador não é apenas a escalada da submissão, mas a falta de questionamento por parte dos envolvidos. Em determinado momento, a situação atinge um nível ainda mais inacreditável, quando se insinua um ato sexual motivado pelas ordens daquela voz.

Quando lembramos que os fatos retratados no filme ocorreram em diversas lanchonetes nos Estados Unidos, em 2006, o escândalo se intensifica. O filme deixa de ser apenas um suspense psicológico e transforma-se em uma demonstração incômoda da nossa fragilidade moral. Os séculos passam, avançamos material e cientificamente, aperfeiçoamos instituições, mas continuamos vulneráveis a figuras ridículas e caricatas. Idolatramos o que há de mais bizarro na política e reproduzimos, no cotidiano, pequenas e grandes formas de submissão, muitas vezes sem perceber que somos nós mesmos que sustentamos aquilo que nos oprime, que nos subjuga.

No final das contas, o homem do outro lado da linha é apenas mais uma, entre tantas, mentes doentias e manipuladoras que circulam por aí. Ele é alguém que encontra, do outro lado, disposição para obedecer, e é justamente nisso que a máxima de La Boétie revela sua força atemporal: as fraquezas e vulnerabilidades da consciência humana constituem o terreno mais fértil para o florescimento do tirano. Quantas vezes já entregamos nossa própria liberdade a uma simples voz de autoridade?

Cena de Obediência (2012).