Artigo I O encontro com Clint Eastwood
TEXTOS
George Lucas Casagrande
Conheci o cinema de Clint Eastwood em meados de 2012, quando uma amiga, entusiasta do diretor, me indicou Sobre Meninos e Lobos. Logo depois, fez ela um alerta: “trata-se de um dos filmes mais pesados que já assisti”. Não era uma simples recomendação, portanto. Eu acabava de receber o convite para entrar em um universo que conhecia muito superficialmente. Começava ali uma admiração cinematográfica que perdura até hoje. Educadores, alguns artistas acabam moldando nosso olhar sobre o outro, nossa relação com o mundo. Clint tornou-se, para mim, esse tipo de artista.
Naqueles anos, eu vivia um momento de investigação pelo cinema. Meu interesse por filmes mais autorais ou de arte crescia, e passei a comprar muitos DVDs. Desde então, minha coleção de filmes ou conteúdos sobre o artista não parou de crescer.
Sobre Meninos e Lobos foi então a porta de entrada para o universo eastwoodiano. Seu rosto já me era familiar, mas ainda estava associado aos personagens mais icônicos de sua carreira. O arcabouço do diretor Clint Eastwood, assim sendo, ainda me era praticamente desconhecido. Logo depois, me afeiçoei a quase todos os seus filmes, desde os protagonizados como ator, em sua parceria gloriosa com Leone e Siegel e outros, até os mais celebrados recentemente. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia uma sucessão de grandes filmes revelou algo mais profundo: a existência de uma obra. A assinatura de um autor.
Hoje, acredito que essa afirmação possa parecer uma obviedade. Pois, embora agrade um grande público, assim como Tarantino e Scorsese, Clint é um diretor-autor, dono de uma linguagem cinematográfica autoral. Seus filmes, que trafegam em diversos gêneros e são diferentes em aparência, guardam uma inquietação semelhante. Mudam os períodos históricos, os cenários, os conflitos, mas as narrativas retomam as mesmas indagações, os mesmos dilemas. Compreendi, então, que estava diante de um cineasta inventivo que, embora fizesse um cinema simples, estava profundamente preocupado com as grandes questões humanas e resistia à tentação de oferecer respostas fáceis.
Os filmes de Eastwood parecem desconfiar de qualquer explicação capaz de reduzir a complexidade humana. Desconfiados das instituições e obrigados a enfrentar sozinhos seus dilemas, seus personagens raramente encontram abrigo em ideologias, discursos políticos ou sistemas de pensamento que prometem respostas fáceis ou definitivas. Vivem num mundo em que as circunstâncias ajudam a explicar suas escolhas, mas jamais as absorvem completamente. Em algum momento, todos precisam decidir. É precisamente nesse instante, quando nenhuma solução parece plenamente satisfatória, que seu cinema encontra sua matéria-prima.
O que resta ao homem quando todas as certezas desaparecem? Que caminho seguir quando qualquer escolha parece inevitavelmente imperfeita? Seus protagonistas são homens comuns, quase sempre solitários, marcados por perdas, traumas e pela dura experiência da própria vida, de suas próprias escolhas. São outsiders que vivem à margem, seja geográfica, social ou espiritualmente. Clint toma partido justamente deles: dos vulneráveis, dos esquecidos e daqueles que, apesar das próprias fragilidades, insistem em preservar alguma forma de dignidade, insistem em preservar um senso ético. Mesmo em meio às injustiças do mundo. Mesmo em meio à imperfeição de todas as coisas.
Dessa forma, a obra de Vaux ocupa um lugar singular entre os estudos dedicados a Clint Eastwood. Com grande sensibilidade, a autora investiga essa dimensão ética eastwoodiana e revela o profundo horizonte teológico que atravessa sua filmografia. Culpa, perdão, sacrifício, responsabilidade, comunidade e esperança: questões que permeiam a humanidade há séculos percorrem suas páginas e oferecem uma chave de interpretação para diversos de seus filmes, que, embora componham um vasto painel dos Estados Unidos da América, mostram uma dimensão universal e atemporal em seus temas, que ultrapassam culturas, fronteiras e épocas. A proposta que orienta este livro aparece de forma clara logo em sua introdução:
“Pretendo, portanto, preencher uma lacuna crítica ao examinar a visão moral em constante desenvolvimento presente na filmografia de Eastwood, situando-o em seu devido lugar na história intelectual e cinematográfica. Meu objetivo é ampliar nossa compreensão das complexidades de suas obras mais importantes, analisando-as sob perspectivas narrativas, artísticas e temáticas.
Eastwood merece ser reconhecido ao lado de cineastas como Robert Bresson, Martin Scorsese, Carl Theodor Dreyer, Claire Denis e os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne — realizadores que, em seus trabalhos mais pessoais, se dedicam conscientemente a explorar a natureza moral da experiência humana por meio da arte cinematográfica.”
Antes de concluir, gostaria de destacar a surpreendente escassez de traduções de livros recentes sobre cinema no mercado editorial brasileiro, realidade ainda mais evidente quando pensamos em um cineasta da dimensão de Clint Eastwood. A Visão Ética de Clint Eastwood representa, nesse sentido, uma contribuição importante para os leitores interessados em aprofundar seus estudos sobre a sétima arte. Até o momento em que este prefácio é escrito, em 2026, existem apenas outras duas publicações em português dedicadas ao cineasta.
A primeira é a biografia de Marc Eliot, publicada no Brasil sob o título Clint Eastwood: Nada Censurado, voltada principalmente à trajetória pessoal e aos bastidores de sua carreira. A segunda é Clint Eastwood: O Cineasta Icônico e Sua Obra, de Ian Nathan, publicada recentemente em uma edição rica em imagens de sua filmografia. Também merece destaque Paisagem e Deriva no Cinema de Clint Eastwood, do pesquisador brasileiro Dirceu Marins. Todos esses livros, e em especial o último, contribuíram bastante para o meu inesgotável estudo sobre o universo eastwoodiano.
Por fim, resta-me agradecer à minha família, que sempre acompanha meus textos com atenção, dando sugestões e observações valiosas. Espero que estas páginas despertem no leitor a mesma inquietação que acompanha minha relação com a obra de Clint Eastwood há tantos anos. Que a menina pobre e sonhadora do Missouri, o cantor alcoólatra e desajustado do Oklahoma, ou qualquer outro personagem outsider e ranzinza permaneçam vivos em sua memória, pois todos compartilhamos algo que nos aproxima: a difícil tarefa de enfrentar o drama da condição humana.
*Prefácio escrito para o livro A Visão Ética de Clint Eastwood.
