Artigo I O Agente do Sono
TEXTOS
George Lucas Casagrande
Atualmente, é possível observar diferentes formas de histeria na internet, espaço amplo e relativamente novo para expressões distintas. Não por acaso, vivemos sob constantes ondas de mobilização digital, num cenário em que conteúdos insignificantes ganham intensa projeção, impulsionados pelo barulho coletivo de fãs ou haters. Em suma, com a conexão em massa, o comportamento de manada se proliferou como jamais visto na história. No mundo do cinema, por exemplo, esse fenômeno se manifesta de maneira um tanto quanto curiosa. Há pouco, um filme bobo da Barbie já era sucesso antes mesmo de sua estreia. O barulho antecipado, por si só, parece ter garantido o retorno financeiro. Sorte dos envolvidos.
Em um movimento semelhante, algo parecido ocorreu com o filme brasileiro O Agente Secreto. Esperei que o burburinho diminuísse antes de assisti-lo, buscando uma experiência menos contaminada por opiniões alheias. Pois, além desse ruído típico das redes, o filme, como já virou hábito em tudo, carrega a marca de uma polarização política exaustiva. Muitos sequer haviam assistido à obra, mas já a defendiam ou atacavam com fervor, guiados apenas por sua temática ou posicionamentos ideológicos de seu diretor e elenco. Diante desse contexto, sinto-me mais à vontade para analisá-lo com algum distanciamento, embora minha percepção seja parecida com a de muitos que dissertaram a respeito.
Quando tive conhecimento da existência de O Agente Secreto, impulsionado por todo aquele material promocional, confesso que me animei. Como fã de thrillers policiais, esperei algo mais vibrante. Sabia que a direção de Kleber Mendonça não seria neutra, e nem precisava ser, já que a gramática da arte costuma operar acima das exigências de imparcialidade. Ainda assim, mesmo tratando-se de um cinema de arte, imaginei um thriller abrasileirado, com certa originalidade, mas que dialogasse mais com as convenções do gênero. Pois é, me enganei.
O filme não corresponde às expectativas nem ao prestígio que o cerca. É, de fato, uma obra de viés mais autoral, distante de uma linguagem comercial como a de Walter Salles (é inevitável a comparação, por motivos evidentes). No entanto, isso não o exime de seus problemas. E não me refiro à temática da ditadura, pois considero o ponto de partida excelente. A proposta de abordar o período a partir do conluio entre empresários e instituições para perseguir desafetos pessoais e políticos é, em tese, interessante. O problema é que essa perseguição, que deveria sustentar a tensão narrativa, quase não acontece, para dizer o mínimo. O filme começa no meio do nada e não vai a lugar algum.
A trama acompanha Marcelo (ou Armando), professor universitário e especialista em tecnologia que foge de São Paulo para Recife. Em busca de refúgio e tentando se reaproximar do filho, ele passa a desconfiar de que está sendo vigiado, mergulhando em um ambiente que sugere perseguição e violência. Essa é a promessa do trailer. Mas só do trailer mesmo. Na prática, essa atmosfera de suspense nunca se desenvolve de maneira convincente. A paranoia do protagonista não engaja, tampouco gera o impacto esperado. Até o flashback que alterna entre o passado e futuro merecia uma edição melhor. Ou seja, o espectador tem a sensação de que toda a linguagem do filme não se encaixa bem.
A ideia inicial é promissora, a de construir uma leitura do totalitarismo a partir de uma atmosfera sensorial, quase grotesca, marcada pela banalidade da violência e pela deterioração das relações humanas. Em suma, a construção de um clima de suspense por meio de símbolos e metáforas visuais. Não há problema algum em optar por essa via indireta, ao contrário, trata-se de um caminho estético interessante. O problema surge também quando o filme tenta abarcar múltiplas questões sem o devido rigor narrativo. Racismo, homofobia, xenofobia, aparecem como fragmentos dispersos, quase como inserções forçadas para reafirmar uma determinada visão de mundo. Falta, para ser direto, maior coesão entre tudo e todos.
O resultado é um roteiro confuso, composto por episódios que pouco dialogam entre si, com personagens que não se desenvolvem de forma realmente cativante. Não dá pra forçar a barra e classificar o filme como um fenômeno cult, como alguns jovens adultos querem engendrar. Quanto às atuações, nem mesmo Vagner Moura mantém o interesse. Sua performance, assim como a dos demais, é apática e pouco envolvente. Falta intensidade, falta tensão, e os diálogos são fracos a ponto de dar sono. Quanto ao reconhecimento em premiações, convém relativizar. A história do cinema está repleta de exemplos de obras superestimadas sendo celebradas, enquanto outras, interessantes, são ignoradas. Não há novidade nisso para quem acompanha esse universo com atenção.
Porém, é claro que o filme tem seus méritos. A fotografia, por exemplo, é um dos pontos interessantes. Recife é retratada com um olhar nostálgico, valorizando sua arquitetura e seus espaços históricos. A cidade que consagrou Ariano Suassuna, Gilberto Freyre e tantos outros intelectuais, é um personagem à parte. Há um cuidado estético e detalhista. O vidro manchado de um carro, o jornal cobrindo um corpo, a textura das roupas, tudo compõe uma gramática visual bela e sofisticada, que sem dúvida ficará marcada no cinema nacional.
Dito isso, eu também sinto falta de um magnum opus no cinema brasileiro. Mas convenhamos: montagens estilizadas e sentimentalismo em torno de um ator enganam apenas os posers. No fim das contas, não dá pra forçar a barra, amico mio: O Agente Secreto é um filme chato pra caramba.


